Quando tudo mais falhar, leia a documentação

Esse fim de semana, como a minha applet do network manager insistia em dizer que eu não tinha suporte a redes sem fio, resolvi ler a documentação do meu driver para tentar convencê-lo a aceitar a verdade.

O problema é que o driver cria, por padrão, um dispositivo chamado eth2. O Network Manager, muito inteligentemente, assumia que isso era um dispositivo de rede ethernet e não rede sem fio. A solução: usar o ilustre desconhecido ifrename para mudar o nome do dispositivo para wlan0.

Então, aqui vai a receita de bolo completa para aqueles que também sofrem com esse problema:

aptitude install ifrename
echo 'wlan* driver ipw2200' > /etc/iftab
echo 'install ipw2200 /sbin/modprobe --ignore-install ipw2200; /sbin/ifrename' > /etc/modprobe.d/ipw2200
rmmod ipw2200;modprobe ipw2200

E é só isso. O seu Netowrk Manager já deve ser capaz de reconhecer a sua interface de rede sem fio corretamente e listar as redes disponíveis na vizinhança para você escolher e entrar à vontade.

Enquanto estava nessa brincadeira, encontrei mais essa pérola:

echo 'options ipw2200 led=1' >> /etc/modprobe.d/ipw2200

E, olha que coisa mais linda, agora o led de rede sem fio do meu notebook me informa quando a interface está ativa e quando há tráfego nela.

É isso aí, uma boa leitura na documentação pode fazer maravilhas pelo funcionamento dos nossos sistemas 😉

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Veja, os fatos!

À redação de Veja,

Na sua última edição, Veja publicou uma reportagem sob o título “O grátis saiu mais caro” com o aparente objetivo de atacar o governo federal e o movimento de software livre. Não pretendo aqui comentar os aspectos políticos dessa reportagem ou compor uma resposta oficial da comunidade de software livre à revista, já que não me considero minimamente capacitado para nenhuma dessas tarefas. O que pretendo é apenas trazer ao conhecimento da revista alguns aspectos que, aparentemente, escaparam à investigação do repórter.

O Software Livre que nunca existiu

Os técnicos do Serpro tentaram em vão substituir por software livre os programas que funcionavam com perfeição mas estavam sendo rejeitados apenas porque operavam em Windows. Foram feitas versões em código aberto do programa de imposto de renda on-line e do portal de compras públicas ComprasNet. O resultado foi tão ruim que os dois programas continuam funcionando no sistema Windows.

Suponho que o “programa de imposto de renda on-line” mencionado aqui seja aquele que utilizamos todo ano para fazer as nossas declarações de IRPF. Neste caso, devemos deixar claro que nunca aconteceu o desenvolvimento de uma versão em código aberto ou mesmo a tentativa de substituição da versão Windows por essa versão que nunca existiu. O que houve, sim, foi uma tentativa, bem sucedida na minha opinião, de trazer a possibilidade de fazer a declaração de IRPF on-line àqueles cidadãos que, por algum motivo, não utilizam o Windows em seus computadores. Com esse objetivo, foi desenvolvido um novo programa utilizando a linguagem Java possibilitando a sua utilização em qualquer sistema operacional que possua um ambiente de execução Java instalado. Isso significa que ele pode ser executado não só no Linux, mas também no MacOS, Solaris e até mesmo no próprio Windows. Graças a essa medida, já há três anos que eu posso fazer a minha declaração do IRPF no meu próprio computador. É bom lembrar que esse programa continua sendo de código tão fechado quanto a sua versão mais antiga que continua sendo desenvolvida para uso exclusivo em plataforma Windows. Portanto, este caso não tem absolutamente nada a ver com adoção do software livre.

Livre Mercado == Monopólio?

A empresa Vesta deixou de vender software de compras públicas on-line para a Bolívia porque Lula resolveu oferecer ao país um programa com a mesma função. ‘O governo não só reinventou a roda com o software livre, como prejudicou a competição no mercado de tecnologia'”, diz Paula Santos, sócia da Vesta. É a política do software livre contra o livre mercado.

Qual o conceito de livre mercado aqui? É um mercado no qual uma empresa é livre para impor a sua solução a qualquer um? Ou um mercado onde o cliente é livre para escolher a solução que melhor lhe convier? Na minha opinião, o software livre estimula muito o livre mercado, na medida em que traz competição para um mercado em que as empresas estavam acostumadas a ser detentoras de um monopólio, fazendo com que mesmo essas empresas monopolistas tenham que investir na melhoria dos seus produtos.

E, se a reportagem está certa em afirmar que o software livre sai mais caro a longo prazo, a empresa não deveria reclamar por o governo dar software para a Bolívia. Basta ir lá agora e mostrar para eles que isso é ilusão e vender o seu software para eles.

FUD no melhor estilo “Get the facts”

Software livre – é preciso contratar consultores especializados para adaptar e melhorar o software constantemente

Software pago – a empresa proprietária do programa dá suporte técnico gratuito por até cinco anos

Aqui, no melhor estilo da campanha de desinformação “Get the facts” da Microsoft, foram misturadas duas meias-verdades para fazer parecer que quem usa Software Livre está perdido sem nenhum auxílio e quem usa software pago está no céu e vai ter o software moldado à sua vontade. Vamos com cuidado para não cairmos na armadilha.
Vamos separar o tal suporte técnico em três partes: resolução de dúvidas do usuário, correção de problemas/atualizações de software e adaptação/desenvolvimento de novas funcionalidades. Analisemos estas três partes separadamente:

  • resolução de dúvidas – os usuários de software proprietário contam com suporte através de email ou telefone por um determinado período de acordo com o plano de suporte contratado. Usuários de software livre contam com a ajuda de outros usuários e até mesmo dos próprios desenvolvedores do software através de email e/ou IRC e podem contratar outras modalidades de suporte de empresas que o forneçam.
  • correção de problemas/atualizações de software – Tanto usuários de software livre quanto usuários de software proprietário têm a sua disposição correções de problemas e pequenas atualizações de software gratuitamente. Os usuários de software livre podem ter, também gratuitamente, upgrades de versão de todo o seu software. Já no caso de usuários de software proprietário, a não ser que se tenha algum grande contrato com a empresa proprietária do software, é necessário pagar pelo upgrade para novas versões do software.
  • adaptações/desenvolvimento de novas funcionalidades – no caso do software livre, se a funcionalidade não for algo de grande interesse dos desenvolvedores ou da comunidade em geral ou se houver grande urgência sobre o desenvolvimento, pode ser necessário contratar um desenvolvedor para fazer o serviço. Já no caso do software proprietário, mesmo que seja de interesse da maioria dos usuários, se o desenvolvimento não está nos planos da empresa proprietária do software, é impossível fazer a adaptação que se deseja.

Resumindo, não vamos deixar os leitores pensando que, porque compraram a caixinha de um software, qualquer modificação que ele deseje vai ser executada pela sua proprietária gratuitamente. Pelo contrário, é possível que ele nunca veja isso se realizar, já que não tem acesso aos códigos fontes e por isso depende exclusivamente da proprietária, não podendo pedir que outra pessoa ou empresa o faça. Num balanço geral, quem usa software livre está em vantagem.

Conclusão

Não sei se por descuido nas suas investigações ou se intencionalmente, o autor da matéria escreveu algumas inverdades criando uma imagem bastante negativa do Software Livre.
Se isto aconteceu por falta de alguém para consultar a respeito do assunto, me coloco desde já à disposição desta revista para eventuais consultas durante a elaboração de futuras reportagens que venham a tratar do tema.

Atenciosamente,

Goedson Paixão

goedson@debian.org

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